Iracema a Professora dos Kalungas

Paulo Briguet

Ela esteve na terra onde negros atingiram a liberdade e a preservaram através dos séculos, 300 depois da morte de Zumbi. Ela viveu três anos no lugar em que há trovadores e missas realizadas em latim. Ela conheceu brasileiros que falam ancê em vez de você e acredita que os mortos podem voltar e carregar os parentes vivos até o além.
Quem hoje vê a comerciante Iracema Ferreira dos Santos, atrás do balcão de sua mercearia em Londrina, não pode imaginar que ela foi a primeira professora do último quilombo brasileiro. De 1988 a 90, Iracema viveu entre os kalungas, comunidade de 3 mil negros, descendentes de escravos foragidos no século 16. O quilombo Kalunga está encravado nas serras do rio Paranã, extremo norte do Goiás, perto da fronteira com Tocantins.
Iracema fundou uma escola para os kalungas e tornou-se uma grande amiga da comunidade. “Até hoje eles mantêm contato comigo”.
Formada em Teologia e Antropologia, Iracema já havia dedicado seis anos de sua vida (entre 1982 e 87) aos índios Apalaís, uma tribo de 400 integrantes que vive completamente isolada da civilização na fronteira do Brasil com o Suriname, norte do Pará. Missionária batista, ela ensinou os índios a ler e escrever. E também trabalhou como auxiliar de enfermagem.
A dificuldade para chegar ao Kalunga é grande. Em 1988, Iracema, que nunca havia montado em um animal, teve que enfrentar uma viagem no lombo de mula, nas serras próximas ao rio Paranã. Foram dez horas de travessia no mato. Se é difícil chegar ao quilombo, é muito fácil conviver com os negros hospitaleiros e simpáticos. “Eles me receberam muito bem desde o primeiro dia”, diz.
Isolados geograficamente, os habitantes do quilombo mantém pouquíssimo contato com a civilização. Não têm água encanada, energia elétrica ou esgoto. Moram em casas de pau-a-pique ou feitas de adobe (barro prensado em forma de blocos). Para subsistência, plantam arroz, feijão, milho e, principalmente, mandioca. Os kalungas produzem a farinha de mandioca à maneira primitiva, no pau de angico, e a vendem nas cidades vizinhas, levando os sacos dos produtos nas costas, serra adentro.
“A venda da farinha é a única forma de comércio que eles mantêm”, ressalta a professora. Com o dinheiro obtido na venda do produto, os kalungas compram sal, óleo, açúcar, café e pinga. Mas, dentro do quilombo, não circula dinheiro: apenas há troca de produtos.
A organização política dos kalungas dispensa qualquer tipo de governo formal. O quilombo está subdividido em clãs. Todos os problemas são resolvidos pelas próprias famílias. Cada clã vive em locais definidos como vãos: entre outros, há o vão dos Moleques, o vão do Boi e o vão das Almas. No limite entre dois vãos, Iracema viu um muro construído pelos ex-escravos há séculos. “Os kalungas nem se dão conta do valor histórico desse muro, para eles é só mais um objeto do cotidiano”.
No Vão das Almas, Iracema construiu a sua escola e começou a dar aulas para crianças e adultos. “É uma satisfação muito grande você ensiná-los a ler e escrever. O acesso à educação é importante para que eles vivam melhor e não sejam enganados pela sociedade de fora”.
O nome da escola foi escolhido pelos próprios habitantes do local: Joana Pereira. Trata-se de uma antiga habitante do local. “Eles têm um grande respeito pelos mais velhos”, ressalta Iracema. A reverência à professora também era total. Alunos como o garoto José Vino – que aprendeu a ler em um ano de estudo – tomava a benção da mestra e lhe beijavam a mão antes de entrar na sala de aula. Todos disciplinados.
Ao mergulhar completamente na sociedade dos kalungas, Iracema pesquisou as suas origens. Pouco se fala do passado no quilombo, mas a professora descobriu que a fundação do quilombo remonta ao século 16, quando negros se revoltaram contra senhores de engenho e fugiram para o interior de Goiás. Ela acredita que os antepassados dos negros kalungas vieram do Senegal.
Cultura kalunga mistura elementos de origem portuguesa e africana. Em todos os meses de agosto é celebrada a Festa do Império, quando a comunidade escolhe um rei, uma rainha e os mordomos. A festa é celebrada com muita dança, muita bebida. A cachaça é largamente consumida; os instrumentos de percussão – feitos artesanalmente com couro animal – garantem o fundo sonoro da sussa, uma dança de origem africana. Na sussa, as pessoas equilibram objetos sobre a cabeça de uma forma que impressionou Iracema. Outro vestido dos tempos de colonização portuguesa é a presença dos trovadores. A professora Iracema perdeu a conta das vezes em que foi homenageada pelos trovadores do quilombo, em agradecimento ao seu trabalho na escola.
A religiosidade dos kalungas também possui uma dupla origem. A missa é celebrada por um líder espiritual da comunidade, à maneira antiga: em latim. “Eles revesam o terço e a missa em latim, mas não sabem o que estão falando”, observa Iracema.
Mas o misticismo de raiz africana também está presente. Uma das cenas que mais impressionou Iracema foi a celebração em que um grupo de rezadores comeu grande quantidade de mandioca braba, o que é geralmente fatal para o organismo humano. De acordo com Iracema, eles ingeriram o veneno e nada aconteceu. O mistério cerca os rituais do quilombo. “Os rezadores kalungas adivinham a data e a hora que você nasceu, se eles quiserem”.
O casamento entre os negros do quilombo é também celebrado pelo líder espiritual, um ancião que vive afastado do grupo. A festa costuma durar sete dias. A comemoração coletiva é intensa. Ao final, os habitantes queimam um enorme cruzeiro de madeira e celebram o enlace. A noiva, depois da primeira noite conjugal, vai para a casa dos pais e pode ficar por lá vários meses depois do matrimônio, até que o marido venha buscá-la. “Sempre tive muito respeito pelas diferenças culturais”, diz a professora.
A linguagem dos kalungas está recheada de expressões arcaicas, que sobreviveram dos tempos coloniais. Você é ancê. Cama é coma. Quarto é camarim. Lugarejo é corrutela. “No início eles eram quase incompreensíveis, mesmo porque falavam com um sotaque muito cantado, comenta Iracema.
Donos do seu próprio tempo, os kalungas trabalham exclusivamente para garantir a sobrevivência – não visam lucro ou riqueza material. Quando Iracema chegou ao quilombo, teve a impressão que a comunidade vivia na miséria. Depois foi descobrindo que na verdade eles eram felizes e saudáveis. Vestem trapos e dormem sobre a palha, mas não têm as ambições da sociedade do consumo. “Eles estão na miséria de acordo com nossos padrões, mas têm a liberdade de viver seu próprio ritmo de vida como querem”. No momento em que se celebram os 300 anos da morte de Zumbi, o grande líder do quilombo dos Palmares, seus irmão do quilombo Kalunga podem dizer que atingiram a liberdade – é o que garante a professora Iracema.
Mas a liberdade dos kalungas está sendo ameaçada, denuncia Iracema: se for construída uma barragem no rio Paranã, como pretende o governo de Goiás, as terras do quilombo seriam alagadas. “Isso seria o fim dos kalungas. Quem vai defendê-los?”.
Iracema também identifica um problema sério que vem atingindo os kalungas: as picadas de cobra. “Muita gente morre por falta do medicamento Específico Pessoa, que atua como soro antiofídico”, diz Iracema. Na sua próxima viagem ao quilombo, Iracema espera conseguir, através de doações, uma boa quantidade do medicamento para levar aos kalungas.
Voltar? Sim. Iracema sente uma saudade muito grande tanto do quilombo quanto da tribo dos Apalaís. “Não me adapto mais a essa civilização moderna, egoísta e violenta. Os negros do quilombo atingiram a liberdade porque são solitários e não praticam a violência”. Dizendo-se satisfeita por levar o universo da leitura aos filhos do quilombo, Iracema pensa no dia em que voltará para as sociedades que dispensam a tecnologia e o progresso material.
Para ela, estranhos e selvagens são os caminhos de asfalto, jamais as corruelas do rio Paranã.
Para chegar ao quilombo, encravado nas serras do Rio Paranã, extremo norte de Goiás, foram dez horas de viagem em lombo de mula.
‘Sou assim: não vejo obstáculos’
Da Redação
Antes de ir para o quilombo kalunga, a professora Iracema Ferreira dos Santos, já havia passado seis anos na tribo dos índios apalaís. Eles vivem no parque Tumucumaque, fronteira Brasil/Suriname, onde só é possível chegar de helicóptero ou avião. Nesse período, Iracema teve como casa um barraco onde, sgundo ela, “chovia mais dentro do que fora”.
Na década de 80, Iracema estudou profundamente a cultura e a língua dos apalaís, juntamente com um casal de batistas norte-americanos (“Sally e Edward, dois gênios que se dedicaram a antropologia”). Foi para a tribo em 1982.
Era difícil compreender os indígenas nos primeiros meses. No entanto, Iracema conseguiu erguer uma escola para os apalaís e acabou sendo adotada pela comunidade. “Eu tenho até uma mãe índia.” Quando questionada sobre a saudade que sentia da família, que ficou em Londrina, Iracema responde: “Se eu tenho um objetivo na vida, não vejo obstáculos. Sempre fui assim.”
Além de introduzir os nativos no universo da linguagem escrita, Iracema ajudava-os com seus conhecimentos de enfermagem. “Tem muita malária naquela região”. Ela mesmo contraiu a doença.
“Lá você vê a natureza grandiosa e sente que existe um Ser Superior”, diz Iracema, ecologista muito antes de qualquer modismo. Certa noite, Iracema estudava no barraco quando ouviu um pequeno ruído. Depois outro. No terceiro ruído, olhou para o chão. Uma cobra jararaca passava por seus pés. Esse episódio deixou uma lição a Iracema: “Se você não agride a natureza, a natureza não o agride”.
Peixe fora d’água na cidade, Iracema fez uma pequena concessão ao progresso e hoje aprende informática. Mas tem um motivo: “Estou sistematizando a gramática da língua apalaí”. Quando concluir o trabalho, é bem possível que ela desligue o computador, deixe a mercearia e se despeça mais uma vez da família.

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